quarta-feira, abril 12, 2006

"Uns dois meses antes, em uma tarde sossegada, Chartrand cruzara com o carmelengo vindo por um dos caminhos que cortavam a Cidade do Vaticano. O sarcedote reconhecera Chartrand como um dos novos guardas e convidara-o para acompanhá-lo em um passeio a pé. Não conversaram sobre nenhum assunto em especial, mas o carmelengo fez Chartrand sentir-se imediatamente à vontade.

- Padre - disse Chartrand -, posso lhe fazer uma pergunta esquisita?

O carmelengo sorriu.

- Só se eu puder lhe dar uma resposta esquisita.

Chartand achou graça.

- Já perguntei isso a todos os padres que conheço e continuo não entendendo.

- O que é que você não entende?

O carmelengo ia na frente em passos rápidos, o pé levantando a ponta da batina quando ele andava. Os sapatos eram pretos, de sola crepe, e combinavam com ele, pensou Chartrand, como se refletissem a essência do homem: moderno mas modesto e mostrando sinais de desgaste.

Chartrand respirou fundo.

- Não entendo o que vem a ser uma onipotência benevolente.

O carmelengo sorriu.

- Você anda lendo a Sagrada Escritura.

- Eu tento.

- E está confuso porque a Bíblia define Deus como uma divindade onipotente e benevolente.

- Exato.

- Onipotente e benevolente significa apenas que Deus é todo-poderoso e bem-intencionado.

- Compreendo o conceito. É que parece haver uma contradição aí.

- Sim. A contradição é a dor. A fome, as guerras, as doenças.

- Exatamente! - Chartrand sabia que o carmelengo compreenderia. - Coisas terríveis acontecem neste mundo. A tragédia humana é como uma prova de que Deus não pode ser simultaneamente todo-poderoso e bem-intencionado. Se Ele nos ama e tem o poder de mudar nossa situação, Ele deveria também evitar nossas dores, não é?

- Deveria mesmo? - perguntou o carmelengo.

Chartrand ficou embaraçado. Teria passado dos limites? Será que se tratava de uma daquelas perguntas religiosas que não se devia fazer?

- Bem, se Deus nos ama, se é capaz de nos proteger, Ele deveria, sim. Parece que Ele é onipotente e indiferente ou, ao contrário, benevolente e incapaz de nos ajudar.

- Tem filhos, tenente?

Chartrand enrubesceu.

- Não, signore.

- Imagine se tivesse um filho de oito anos. Você o amaria?

- Claro.

- E faria tudo o que pudesse para evitar que ele sofresse na vida?

- Claro que sim.

- E deixaria que ele andasse de skate?

Chartrand estacou, admirado. O carmelengo parecia singularmente "por dentro" para um sacerdote.

- Sim, acho que sim - disse Chartrand. - Com certeza deixaria que andasse de skate, mas diria a ele para ter cuidado.

- Quer dizer que, como pai desse menino, você lhe daria uns bons conselhos básicos e deixaria que saísse e cometesse os próprios erros?

- Eu não correria atrás dele para mimá-lo, se é o que o senhor quer dizer.

- E se ele caísse e ralasse o joelho?

- Ele aprenderia a ser mais cuidadoso.

O carmelengo sorriu de novo.

- Então quer dizer que, mesmo tendo o poder de interferir e evitar que seu filho sentisse dor, você optaria por demonstrar seu amor deixando-o aprender suas próprias lições?

- Claro, a dor é parte do crescimento. É como aprendemos.

O carmelengo sacudiu a cabeça.

- Exatamente."

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Extraído do livro "Anjos e Demônios", de Dan Brown.

P.S.: Não sou católica, mas gosto e fico feliz em encontrar mensagens importantes, seja lá em qual religião for. Quando me deparei com este capítulo no livro que estou lendo, fiquei encantada e emocionada em ver como descreve perfeitamente o que sinto. Por isso, estou aqui dividindo com vocês.

1 comentários:

Márcia disse...

Maravilhoso. Dá vontade de plagiar o post lá no meu bloguinho, hehe!
Nunca mais olharei pra um skate com o mesmo olhar.