Crônica do dia seguinte

quinta-feira, maio 11, 2006

"Um dia ela abriu os olhos, acordou e sentou-se na cama. Desta vez, ela havia acordado de verdade, para a triste e dura realidade. Olhou para o lado, viu o rosto do companheiro, que ainda dormia. Pensou em tudo aquilo que eles não tiveram a oportunidade de viver e que nunca aconteceria mais: os filhos, as realizações, as brigas, as reconciliações, os sucessos, os fracassos, a possibilidade de envelhecerem juntos.

Pensou no quanto era esquisita aquela situação. Há meses dividiam a mesma cama, os mesmos cômodos, os mesmos espaços. Mas não dividiam a mesma vida. Seguiam por caminhos diferentes, afirmando que se amavam, mas sem se dar conta de que aquilo não era o amor.

Por isso ela havia acordado de verdade naquela manhã. Porque ela já sabia que algo a incomodava há algum tempo, mas nunca havia parado para pensar exatamente o que era. Ela podia dizer qualquer coisa: que era por falta de tempo, que ele era complicado demais, que ela era exigente demais. Mas a verdade é que aquilo em nada se parecia com o tipo de amor que ela acreditara existir e sonhara encontrar.

Naquele relacionamento faltava entrega, cumplicidade, sonho. Faltava o caminhar conjunto, a vontade incondicional de compartilhar cada momento da vida um do outro. Faltavam as conversas sobre os desejos do futuro, faltava a coragem de mergulhar de cabeça, sem medo do que vinha adiante. Faltava a certeza de que tudo daria certo, simplesmente porque estavam juntos e se amavam - nada poderia dar errado desse jeito.

Lembrou-se vagamente de uma música que dizia algo sobre pular de olhos fechados. Fez um esforço mental, mas não consegui lembrar o resto. Olhou pela janela e viu os primeiros raios de sol aparecerem no horizonte. Levantou-se e foi até o closet. Há muito que as roupas estavam praticamente prontas para serem colocadas nas malas, como se soubessem melhor do que ela que o tempo já se esgotara. Arrumou tudo, vestiu-se e saiu. Deu uma última olhada para o rosto daquele a quem tanto amara, mas que agora parecia um completo estranho. Sentiu algo se contorcendo no estômago e subindo para a garganta, mas os olhos continuaram secos. E se lembrou de outro trecho de música, outra música: "lágrimas por ninguém, só porque é triste o fim". Realmente, é triste o fim...

Saiu então para a rua, caminhando de encontro ao carro. Colocou as malas no bagageiro e sentou ao volante. Pensou para onde iria afinal. Ligou o carro e saiu, pegou o rumo da rodovia e seguiu em frente. Deixou para trás toda uma vida, com trabalho, amigos e família. Deixou para trás e não olhou no retrovisor. Aquele seria o primeiro dia do resto de sua vida. E havia um longo caminho pela frente."

Autora: Laleska

2 comentários:

Márciadoidadepedra disse...

...ai ela cai na vida, pinta o cabelo, matricula-se num curso de dança, conhece um loirinho de olho azul, aprende a surfar, joga fora as fotos com o ex, muda de vida e se sente mais calejada e feliz com a vida. Hehe!
Tá, eu tenho mania de final feliz...mas que eles, às vezes, existem, existem!

Senhora D. disse...

eu tb quero acreditar nos finais felizes... sempre. :*