VOR - Nova York (EUA) a PortSmouth (Inglaterra)

quarta-feira, maio 24, 2006

Para os que não acompanharam as notícias, terminou esta semana a 7ª perna da Volvo Ocean Race, que foi de Nova York (EUA) a PortSmouth (Inglaterra) . E esta foi a perna mais complicada e - pode-se até dizer - trágica. O barco ABN2 perdeu um tripulante e o Movistar afundou - felizmente sem vítimas.


Aí vão as notícias mais recentes, pelo jornalista Murillo Novaes (para receber o boletim informativo, mande um e-mail para murillonovaes@uol.com.br)
P.S.: Lucas Brun é o velejador brasileiro a bordo do barco ABN2.

Dia de coletivas na Volvo. Tripulações de ABN2 e
Movistar contam suas tragédias.

ABN2 ? Hoje foi um dia emocionante na Inglaterra. Logo no começo da manhã a equipe ABN2 se reuniu para falar sobre a travessia ?eventosa? de NY até Portsmouth. Lógico que a maioria das perguntas era sobre a morte de Hans Horrevoets.

Roy Heiner, o comandante Seb Josse, o navegador Simon Fisher e praticamente todos os membros da tripulação, inclusive Luquinhas Brun, falaram. O que se ouviu, esclareceu muitos pontos. Primeiro, Hans estava sim, sem o cinto de segurança e sem o colete salva-vidas. Segundo, foi realmente um acidente, algo do acaso, que não tem muita explicação. Acompanhe.

O acidente aconteceu depois de uma troca de velas quando todos que não estavam no turno haviam acabado de descer para a cabine. O vento subiu repentinamente de 12-14 nós para 26-28 nós e quando o barco mergulhou a proa em uma onda maior e foi varrido pela água, Hans desapareceu.

Nick Brice contou que, ?todos no convés, menos Hans estavam com o cinto clipado. Ele estava regulando o balão. Com as mãos na escota mais importante para o barco naquele momento logo depois da troca de vela. O último cara a se clipar, seria ele, foi uma questão de 30 segundos ou um minuto e ele seria rendido para descer também e colocar o cinto de segurança...?

Quando Hans caiu, imediatamente o comandante Sebastien Josse gritou ?Homem ao Mar? e o navegador Si-Fi plotou a posição da queda. Os outros tripulantes jogaram bóias circulares e uma jon buoy (bóia de resgate que se infla automaticamente e tem uma torre com bandeira). O barco baixou as velas, ligou o motor e fez meia volta. Eles se prepararam para o resgate, com o equipamento elétrico de ressuscitamento pronto e o ?mergulhador? Simeon Tienpont a postos. Todos tomaram suas posições de emergência.O hospital de Plymouth foi contatado e passou instruções antes e durante a tentativa de trazer Hans de volta.

Simon Fisher conta que assim que começaram a fazer o backtrack (andar para trás na rota percorrida) foram achando as coisas que haviam jogado ao mar e estavam boiando. Depois de 40 minutos acharam Hans e o colocaram para dentro. Aí, foi o que se sabia. Todos os que tinham treinamento médico e de salvamento se revezando para tentar ressuscitá-lo e depois a trágica constatação da morte.

O chefe do time, veterano da Whitbread na companhia de Hans e starista de sucesso, Roy Heiner, disse que só a autopsia poderá revelar a causa da morte de Horrevoets. O que todos comentam é que provavelmente foi hiportemia.

Lucas Brun que estava no convés quando tudo aconteceu, falou de seus sentimentos, ?Eu estava no convés ajudando a baixar as velas quando ele caiu. Quando o recuperamos foi muito difícil. Uma situação muito dura. Ninguém está realmente preparado para isso.

Uma hora o cara está lá do seu lado, conversando, ajustando as velas, fazendo piada. De repente, você o está retirando da água, desfalecido. Depois fica o vazio do turno. Onde deveria haver quatro, tem apenas três. O que nós conversaríamos? O que ele falaria? Nada no mundo te prepara para isso. Você não consegue imaginar.?

?Mesmo assim sou a favor de continuarmos correndo a regata. Foi um acidente. Coisas assim, infelizmente acontecem. Poderia ser com qualquer um de nós. É uma fatalidade. São coisas da vida.?

Aliás, o time ainda não decidiu se vai continuar ou não. De certo mesmo, só que a organização deu a chegada oficial como sexto colocado para o barco. Pelo que se viu hoje a tendência é que eles continuem. Mesmo porque, todos, sem exceção, quando perguntados se fariam uma Volvo novamente, não hesitaram em responder que sim. Esses ?amadores?, na verdade, se revelaram mesmo grandes marinheiros. Bonito!!

Movistar ? A segunda parte, digamos assim, das coletivas foi com o pessoal do Movistar. Claro que Bouwe Bekking agradeceu muito e se impressionou com o profissionalismo e força da tripulação do ABN2. O fato de ter a bordo o corpo de um companheiro morto e mesmo assim dar meia volta e ir salvar os outros amigos, conta muitos pontos também. Marinharia de alto nível.

Os tripulantes do barco espanhol falaram sobre muitas coisas e estavam muito agradecidos ao ABN2 e muito impressionados com as fatalidades que se abateram sobre as duas equipes, mas a pergunta que não queria calar era: e o barco?

Bekking falou que não sabia e que provavelmente ele já poderia estar no fundo do mar. ?Com ondas de até 10 metros e ventos de mais de 50 nós provavelmente ele já afundou. Se não, deve estar emborcado sem a quilha. Mesmo assim hoje, com a melhora do tempo, um avião vai sobrevoar a área da última posição que recebemos, há mais de um dia. Lógico que temos compromissos com o time, seus familiares e os patrocinadores. Seria muito bom achar o barco e tentar retornar a regata?. Mas ele não pareceu muito animado.

Quanto a decisão de abandonar o barco, ele agradeceu muito ao principal patrocinador pela compreensão e disse que a quilha cair era questão de tempo e como as previsões eram de ventos e mares cada vez mais duros, era melhor sair fora. Eu não duvido!!

1 comentários:

Amorosa disse...

Fico chocada quando leio casos de esportistas que morrem durante seus desafios: velejadores, alpinistas, motociclistas, rappeleiros, etc.
Toda vida choro, mas me consola saber que eles estavam praticando aquilo que têm paixão.
;-(